O DESAFIO DA EDUCAÇÃO SOCIAL NA SAÚDE - EXPERIÊNCIAS DE UM SERVIÇO EM CONSTRUÇÃO
 

"...a vida é combate, que aos fracos abate,
que aos fortes, aos bravos, só faz exaltar..."
I-juca-pirama (Gonçalves Dias)
 

 

CONTEXTO MUNICIPAL

As últimas décadas do século XX assistiu Campinas ter sua condição de vida demolida por ação de uma política urbana que privilegiou setores do capital especulativo - imobiliário principalmente - com o agravamento generalizado dos indicadores sociais. A violência urbana tornou-se epidêmica, o trabalho infantil e a exploração sexual de crianças e adolescentes atingiram índices aterradores com a mesma velocidade com que o Estado investia em ações que, por um lado, estimulavam a migração rumo a Campinas de um imenso contingente populacional iludido por perspectivas de emprego e qualidade de vida, e, por outro lado, precarizavam as condições de existência desses migrantes, estimulados a se instalar nos bairros - e ocupações - mais distantes na periferia, inchando artificialmente o perímetro urbano e criando corredores de valorização imobiliária que atendiam aos interesses dos proprietários das extensas faixas de terras entre o centro da cidade e esses bolsões de pobreza e exclusão das políticas públicas.

O CRAISA

Em abril de 2002, a Prefeitura de Campinas uniu dois serviços que existiam há mais de uma década visando a constituição de um CAPS para crianças e adolescentes em uso de substâncias psico-ativas (CAPS AD). Eram o CRAISA, um serviço de caráter ambulatorial da Secretaria de Saúde - SMS - de Campinas, e o Projeto Casa Amarela, um serviço da Secretaria de Assistência Social que atendia a adolescentes estruturados na rua. Nesse processo de integração das equipes que foi complementado pela incorporação de outros profissionais que compõem o atual CRAISA - Centro de Referência em Atenção Integral à Saúde do Adolescente, a equipe experimentou profundas transformações em seu modelo assistencial, na concepção e objetivos do tipo de trabalho desenvolvido com os adolescentes assim como em sua dinâmica e rotinas.
Foi um processo muito difícil para a equipe, que pouca experiência tinha na abordagem do adolescente usuário de substâncias psico-ativas (SPA) do ponto de vista da saúde integral. Enfrentamos limites de uma rede de atendimento com baixa disponibilidade e poucos recursos destinados a esse perfil populacional.
Para nós, educadores sociais, foco central da análise aqui desenvolvida, essa dificuldade se somava àquela decorrente de sua origem em um serviço de assistência social, para quem havia a necessidade de compreender melhor o SUS e o Programa de Saúde da Família que se estruturava em Campinas. Essa trajetória dos educadores sociais rumo às diretrizes do SUS e do Paidéia - PSF produziram nesse conjunto de trabalhadores uma redefinição de sua forma de atuar que permeia a reflexão desse texto.

USUÁRIOS E VULNERABILIDADES

Em nosso serviço predominam os adolescentes que ainda moram com suas famílias, porém estaremos concentrando nossa análise, nesse texto, naqueles que demandam maior atuação do educador social em nosso serviço: os meninos e meninas estruturados nas ruas.
A SMS estabeleceu um conjunto de critérios para o Índice de Condições de Vida (ICV - vide saúde em números em www.campinas.sp.gov.br/saude) que contempla diversos fatores descritivos da população quanto às suas condições de existência. Desde indicadores relacionados à renda familiar, violência e saneamento básico, até elementos relacionados ao perfil reprodutivo da população são incorporados a essa análise populacional das variadas regiões do município. Ao cruzarmos esses indicadores com nossa população constatamos uma coincidência de áreas, sendo evidente que as regiões com piores indicadores de condições de vida são as que mais nos fornecem usuários. Há predominância, entre os usuários de nosso serviço, de crianças e adolescentes moradores nas áreas com os piores índices de escolaridade, gravidez precoce e sub-habitação entre outros fatores.
As condições precárias de existência destas famílias levam as crianças e adolescentes a abandonar seus lares; se estruturam na região central da cidade e tornam-se facilmente vítimas da ação da marginalidade, sendo envolvidos com situações de violência, conflito com a lei, uso abusivo e nocivo de SPAs e assumindo comportamentos sexuais de alto risco. É este foco principal de atuação dos educadores sociais.
Em nosso protocolo de atendimento estabelecemos como público alvo as crianças e adolescentes de 10 a 17 anos, em uso de SPAs, com prioridade para os moradores de rua. Temos entre nossos usuários do serviço hoje uma proporção de 2 meninos para 1 menina, em situação de rua predominam os negros,  nessa situação vem aumentando o número de meninas, com uma tendência de diminuição da proporção meninos/meninas. Tem ocorrido redução da idade de estruturação na rua e início do uso de SPAs, porém ainda é significativamente maior no serviço a população acima de 14 anos.
Temos discutido alguns critérios de vulnerabilidade, descritos como atitudes ou situações nas quais a criança ou adolescente se expõe aos fatores que aumentam a predisposição para o consumo abusivo ou nocivo de SPAs. Esses critérios indicadores são:

É importante termos em mente que, com freqüência, ir para as ruas é a saída "saudável" para essas crianças e adolescentes, frente a uma situação familiar que é tão precária que a rua se apresenta como melhor que a moradia. Nessas condições, nossa atuação deve necessariamente considerar o núcleo familiar de origem do adolescente como espaço de indispensável avaliação e abordagem. Sabemos que a possibilidade de retorno nem sempre é uma alternativa viável, a curto ou médio prazo, e mesmo, às vezes, é indesejável.
Uma das hipóteses explicativas do consumo abusivo de drogas pelos meninos e meninas, especialmente os estruturados nas ruas, avalia que este se dá como mecanismo de auto-medicação, ou seja, ao experimentar situações que lhes causem sofrimento psíquico, os adolescentes recorreriam às drogas para reduzir o efeito que a realidade estaria causando a eles, para suportar a dor de existir nessas condições.

ATENDIMENTO COTIDIANO

As atividades no CRAISA abrangem um vasto leque de ações cujo objetivo é alterar para melhor as condições de existência das crianças e dos adolescentes que recorrem ao serviço. Queremos, com essas ações, modificar os hábitos pessoais que os expõem a maiores riscos e elevam suas vulnerabilidades, assim como pensar em elementos da dinâmica das relações familiares que possibilitem o (re)estabelecimento de laços intra-familiares que dêem suporte para seu desenvolvimento mais saudável.
No dia-a-dia do CRAISA, os diversos profissionais realizam atendimentos individualizados, grupos, oficinas culturais, artísticas ou outras, busca ativa, visitas familiares e assembléias.
Essas assembléias são experiências de participação dos adolescentes em processos de co-gestão que advêm da incorporação das concepções do SUS e do PSF-Paidéia ao nosso serviço, sendo que estas concepções já se constituíram em prática corrente para a rede básica, em que os CLS estão implantados e em funcionamento há alguns anos. Quanto a serviços de atendimento a adolescentes, buscamos além desse referencial, nas experiências dos Movimentos Populares e das ONGs, para fundamentação de nossa atuação com o protagonismo dos jovens que essas assembléias representam.
Freqüentemente o CRAISA recebe novos usuários vindos por demanda espontânea ou encaminhados pela rede SUS ou Conselho Tutelar. Os meninos e meninas, quando são acolhidos, vêm em um primeiro momento buscar apoio para sua permanência nas ruas em condições menos precárias, ou procuram proteção contra uma sociedade hostil, um espaço para descansar um pouco, atendimentos de saúde (algum machucado ou doença ou, às vezes, suspeitas de gravidez), alternativas para o mal-estar decorrente do abuso de SPAs, e outras vezes um banho ou alimento.
Nessa primeira fase de atendimentos a cada usuário, os meninos e meninas saem, ao final do dia, retornando às ruas: muitas vezes, nem eles desejam abrigamentos, nem os abrigos são muito permeáveis a esses meninos e meninas, principalmente quando relatado o uso de SPAs.
Com o avançar do atendimento, com a formação de vínculos mais fortes entre os jovens e os profissionais, depois de muita negociação, conversas e convencimento, começa a haver a possibilidade de abrigamento ou mesmo, em alguns momentos, de retorno temporário à família. Nossa estratégia, nesses momentos volta-se para prolongar esse período de proteção (em casa ou no abrigo), nos esforçando a aumentar a tolerância do jovem quanto à dinâmica de um espaço onde hajam regras formais. Quando o retorno é para a família, buscamos parceria com esta, estimulando e oferecendo informações que lhe permitam melhorar suas condições sócio-econômicas e de escolarização.

PTS  - INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO

O CRAISA busca identificar, a partir das informações que são colhidas no processo de atendimento de cada usuário, suas vulnerabilidades e riscos, assim como suas potencialidades. A partir do confronto dessas condições com as ofertas que o serviço tem a disposição, internamente ou dos recursos da rede de parcerias com que contamos, é elaborado em mini-equipe o Projeto Terapêutico Singular (PTS), em que aos problemas, riscos e vulnerabilidades identificados devem corresponder ações que explorem as potencialidades desse usuário, visando atuar de modo resolutivo e propositivo sobre essas questões.
Tanto a elaboração quanto a permanente avaliação do desenvolvimento desse PTS é realizada em conjunto com o usuário, sempre que possível. Este se responsabiliza, junto com sua mini-equipe de referência pela condução de seu tratamento, sendo estimulado a assumir o protagonismo de sua vida e a romper com o ciclo de violações de seus direitos, investindo na construção de alternativas que lhe dêem uma perspectiva de elevação de sua qualidade de vida, rompendo com a dinâmica de exploração, dominação, violência e omissão.
O educador social participa ativamente da elaboração do PTS identificando as dificuldades do usuário do serviço, em que suas relações com o ambiente social que o circunda manifestem obstáculos ao seu desenvolvimento saudável. Para estabelecer este diagnóstico de dinâmica social, atua junto às crianças e aos adolescentes e às suas famílias, em atividades individuais e de grupo. Nessas, os objetivos são: estimular a análise das relações e identificar conflitos latentes ou manifestos entre o jovem e seu núcleo familiar; explicitar esses conflitos, suas possíveis conseqüências sobre a qualidade de vida e saúde do jovem e de sua família; instrumentalizá-los para enfrentar essas situações.
Essencialmente trata-se de uma ação em educação social, já que intervém pedagogicamente sobre as estratégias relacionais do adolescente e seus repertórios de comunicação, com vistas a possibilitar a eclosão de outras formas de articulação e organização para sua convivência. Capacitar o jovem (e os membros de sua família) para expressar e refletir sobre os problemas em suas relações é instrumentalizá-lo para compreender e lidar com essas dificuldades, buscando redimensionar a dinâmica dessas relações e construir novos fundamentos para a estrutura familiar.

"NÓIS NA FITA"

Temos observado a situação de adolescentes já estruturados nas ruas constituírem-se em grupos de apoio para outros no início de um processo de fragilização dos laços familiares e estruturação nas ruas. É preciso que tenhamos um duplo (pelo menos duplo) olhar para essas relações: se, por um lado, se mostram como ações de solidariedade e apoio entre adolescentes que estão buscando uma saída para situações opressoras ou violentas; por outro lado, são manifestações de uma estratégia de enfrentamento dos problemas em seu local de origem familiar, pela fuga ou abandono. Essa estratégia entra em conflito com o modelo de organização social que assegure os direitos fundamentais a essas crianças e adolescentes.
É importante, na nossa relação com esses meninos e meninas,
(1) valorizar o aspecto de solidariedade presente nessas relações,
(2) explicitar e problematizar que trata-se de uma estratégia de ampliação do grupo estruturado na rua, necessária para sua manutenção e proteção,
(3) evidenciar que trata-se de uma ação que não enfrenta a situação de violência ou opressão de que se está fugindo, e
(4) refletir sobre formas alternativas de enfrentar a situação de direito violado, levando em conta os recursos existentes. Compreendemos que essa grupalização é típica da adolescência, quando a construção da identidade se dá individual e coletivamente.

É necessário que avaliemos permanentemente se nossa ação é percebida por esses usuários como uma atuação que visa garantir direitos e cidadania e não a sua vivência na rua. Um processo muito prolongado de formação de vínculos que dê aos adolescentes a acolhida às suas demandas (de banho, alimentação, proteção temporária e repouso) para em seguida esse menino ou menina retornar às ruas, pode não responder a uma ação de construção de alternativas à situação precária em que se encontra, mas facilitar a sua permanência nessa condição.
O fato de nós termos o desejo da (re)colocação dessas crianças e adolescentes em sua família ou em outra forma de moradia estruturada deve ser explicitado na relação com nossos usuários, debatida com eles, respeitando sua capacidade de analisar e decidir com autonomia; devemos assumir uma postura educacional ao discutir as implicações do exercício dessa decisão, sempre relativizando essa mesma capacidade de análise ao se considerar a "condição peculiar de pessoa em desenvolvimento" desse usuário - criança ou adolescente. Não devemos impor nosso desejo a eles, mas não podemos abdicar de nossa responsabilidade de problematizar a "opção" de permanecer vivendo nas ruas: nosso papel é educacional e não tutelar.
A angústia é freqüente no atendimento a meninos e meninas de rua, pois os resultados positivos quanto a moradia, renda, emprego, escolarização e retomada dos laços familiares com dignidade e respeito são na maior parte das vezes efêmeros. Lutamos contra um processo de exclusão que é estrutural em nossa sociedade.
Em nossa discussão, bem como no que estabelece o ECA, os abrigos deveriam ser nossa última opção. Mesmo assim, são um recurso muito problemático, que ainda necessita uma reflexão muito mais aprofundada, posto que as dificuldades de adaptação dos meninos e meninas estruturados nas ruas a estas instituições são bastante evidentes em nossa prática cotidiana.
Buscamos não assumir uma postura higienista e disciplinadora em relação aos meninos e meninas estruturados nas ruas. Esta postura os condenaria por condições de existência a que freqüentemente foram conduzidos por uma história social, familiar e pessoal de vitimização e omissão. Por outro lado, não podemos cair na armadilha de encará-los como "coitadinhos", passando-lhes a mão na cabeça. É importante vê-los como são, cidadãos cuja existência está em risco permanente por hábitos adquiridos na luta cotidiana pela sobrevivência, às vezes se colocando em situações de conflito com a lei. Faz-se necessário evidenciar, na ação educativa com estes jovens, que tais atos são também violações de direitos, da mesma ordem daquelas que eles sofrem.
Na equipe, as divergências surgem também como fruto dos variados objetivos e metodologias que se nos apresentam para o enfrentamento dessas questões sociais e de saúde, assim como da carga de preconceitos que envolvem o uso de SPAs e os meninos e meninas de rua. Enfrentamos pressões de todo tipo e origem. Refletimos sobre essas pressões e como nossa visão, social e culturalmente conformadas ao sistema vigente, nos empurram para armadilhas no atendimento a uma população excluída e marginalizada.
Apenas um processo constante de reflexão sobre nossas práticas, preconceitos e idiossincrasias pode nos permitir atuar junto a esses meninos e meninas com a tolerância às suas opções, respeitando suas histórias e reconhecendo neles o direito de exercerem essas escolhas, sem contudo, abrirmos mão de nosso papel de problematizadores dessas escolhas, refletindo sobre suas conseqüências e propondo a construção de alternativas viáveis de existência. O desafio está em estabelecer esse limite entre tolerância e permissividade.

ESTUDO DE CASO

Trata-se de um caso que está sendo acompanhado por nossa equipe há cerca de dois anos e meio, coincidindo com o período de integração dos dois serviços e mudança do modelo de atendimento, e que tem demandado várias possibilidades e estratégias de atuação. Relatamos a seguir o período de oito meses a partir de seus primeiros comparecimentos ao Programa .

A escolha do caso:

O caso de Carla , 17 anos, era para nós um desafio, por sua complexidade e pela extrema vulnerabilidade que essa menina apresenta diante de condições adversas de vida. Moradora de rua, com hábitos de pequenas infrações, usuária regular e abusiva de substâncias psicoativas (álcool e drogas), corre o risco de gravidez precoce e DSTs, dentre outros agravos à saúde.
Acreditamos que potencialmente o caso ainda tem perspectivas de uma maior resolutividade, visto que CARLA tem demonstrado vínculo com o Serviço e resiliência.

HISTÓRICO

Nome: CARLA
Sexo: feminino
Idade: 15 anos
Escolaridade:  4ª série incompleta.

Atendimento inicial ? Carla chegou ao CRAISA espontaneamente, juntamente com um adolescente que já freqüentava o espaço. A adolescente estava com as roupas sujas e aparentava estar sem dormir. Tem os dentes frontais cariados. Disse que estava grávida de três meses, que era usuária de drogas (crack, maconha e álcool) e fazia programas (prostituição) nas imediações do Mercado Municipal. Relatou-nos que mora nas ruas desde os sete anos e que, às vezes, volta pra casa. Estudou até o início da quarta série, mas brigou com o diretor e abandonou a escola. Afirma ter dado um soco no seu rosto, machucando-o muito.

Dez dias depois ? Retornou juntamente com o mesmo adolescente e ficaram desenhando. Afirmaram ter passado a noite consumindo crack

Uma semana depois ? Consulta clínica-ginecológica com queixa de atraso menstrual e suspeita de gravidez.
Antecedentes pessoais:  Filha de mãe alcoólatra, que teve seu primeiro filho aos doze anos de idade. Possui uma irmã de 17 e uma irmã de 19 anos, ambos casados. Fez cirurgia de pé torto congênito aos 3 anos. Vivência nas ruas desde os sete anos, com vários retornos e fugas de casa. Tabagista desde os sete anos (média de 50 cigarros por dia). Usuária de drogas e bebidas alcoólicas. Relata abuso sexual aos 10 anos e aborto aos 12 anos. Crises de bronquite na infância, com duas internações. Menarca aos 10 anos.
Consulta ginecológica: Solicitado BHC-G e colhida citologia oncótica.

Faltou ao retorno das consultas clínica e ginecológica.

Dois meses após a consulta ginecológica Veio ao programa juntamente com a mãe. Foi iniciada a conversa com a mãe que insistia em aparentar desconhecimento da situação da filha. Achava que a filha dormia em pensão e alega no momento não ter condições de alojar a filha por que mora de favor com pessoas que não aceitam a filha por que usa drogas. Alega também problemas financeiros e de saúde (toma anti-depressivos).

Quinze dias  depois Carla ficou alguns dias na casa da mãe, mas saiu novamente para as ruas alegando ter brigado com o padrasto e que a mãe faz muito sermão. Conversou-se sobre a necessidade de retomar os cuidados de saúde e a adolescente mostrou interesse em fazer o exame para HIV. Questionada sobre o retorno às ruas, alegou estar procurando uma pensão. Disse ter perdido a criança e quando questionada sobre o diagnóstico médico negativo para gravidez alegou que o médico estava errado.

Uma semana e meia depois  Tem freqüentado a oficina de culinária e se mostra interessada. Intercala períodos de abstinência do crack, trocando por maconha. Manifesta desejo de fazer tratamento para largar o crack.

Dez dias depois Faltou à consulta ginecológica.

Cinco dias depois Queixa-se de dores de dentes, relata tomar remédios para dor diariamente. Foi marcada consulta odontológica para as 13:00h do mesmo dia, mas Carla não retornou.

Um mês e meio depois Retornou ao programa dopada. Almoçou e levou a sacola com suas roupas.

Dois meses seguintes: Tem freqüentado as oficinas de CULINÁRIA e CONTOS E BRINCADEIRAS. Participa ativamente. Tem revelado gosto pelas histórias e dramatizações. Contou estar namorando um rapaz (atualmente preso) e se diz casada com ele. Novamente diz estar desconfiada de gravidez (teste negativo). Uma de suas atividades atuais no serviço é escrever cartas ao namorado que parece ser referência positiva para ela.

DISCUSSÃO:

É evidente a importância de uma abordagem interdisciplinar deste caso. De que adiantaria tratar as crises de bronquite desconsiderando o fato de Carla ser moradora de rua, tabagista e usuária de drogas?
Os educadores têm acompanhado Carla às consultas e demais atendimentos, incluindo-a em oficinas de tal forma que ela se vinculou ao serviço e a ele recorre espontaneamente. Num primeiro momento foi feito contato com a mãe e com a família pois a situação de rua complica qualquer terapia, além do que Carla ainda é adolescente e necessita ser cuidada. Contudo, a mãe não tem residência fixa, mora de favores e também comete pequenos delitos. A irmã de 17 anos se ofereceu para levar Carla para a cidade onde mora, mas ela não aceitou. De fato, na época, Carla fazia movimentos para largar o crack, mas ainda não se imagina com outro estilo de vida, de forma que em qualquer endereço procuraria recriar essa forma de viver e utilizar drogas.
Juntos com Carla, tendo em vista a necessidade de decidir com ela e não para ela, conforme o pensamento Freiriano, discutimos como seria possível propor alguma forma de terapia de desintoxicação sem uma internação, pois ela própria nos trazia, amiúde, o reconhecimento de que, devido ao fato de estar nas ruas, se tornava, naquele momento, mais vulnerável ao uso de  drogas. Enquanto não se encontrava vaga para internação, optamos por arrumar um local para pernoite  e trabalhar com Carla nas oficinas do CRAISA, ajudando-a a construir um projeto de vida diferente, conhecendo suas aptidões etc. Iniciou-se um trabalho de resgatar sua cidadania começando pela documentação, registro de identidade e indo além em busca de identificar figuras positivas para Carla. No momento seu namorado parece ser uma referência para ela e ela tem planos de ir viver com ele. Os educadores têm ajudado Carla a se corresponder por cartas com esse namorado que ainda está detido e ele tem respondido às suas cartas
Outra preocupação da equipe é trabalhar a contracepção com a adolescente, pois suspeitamos que Carla tem de fato desejo de engravidar, tendo em vista que , por diversas vezes, procurou o Serviço afirmando estar grávida e sempre duvidando dos resultados dos exames, acreditando, por outro lado, que deram negativos porque perdera o bebê.

Consideramos que nosso atendimento tem sido resolutivo, do ponto de vista da saúde imediata, observando os seguintes aspectos:

  • Vínculo estabelecido entre Carla e os profissionais do serviço;
  • Participação ativa nas oficinas de Culinária e de Contos;
  • Higiene pessoal e alimentação sempre que compareceu ao serviço;
  • Fornecimento regular de preservativos;
  • Atendimento clínico e ginecológico (incluindo exame de citologia oncótica e testes de gravidez);

Convém ressaltar que esses avanços não ocorreram de forma sistemática. Entre uma conquista e outra, houve retrocessos que nos davam, às vezes, a impressão de que a perderíamos de vez.
A paciência pedagógica e, por assim dizer, nossa renitência em crer que Carla retomaria em algum momento os processos que rompera, nos permitiram esperá-la para continuarmos e prosseguirmos naquilo que fosse possível.
Onde Carla estará hoje? Já faz algum tempo que não temos notícias suas.
A certeza que temos nesse momento é que foi realizado o possível para que sua vida se tornasse menos árida. Que através de nossos breves encontros tentamos construir uma memória, um referencial que propiciasse, no decorrer de sua vida, a ampliação das possibilidades, de escolhas nas suas relações cotidianas, escolhas essas que resultem em mais que a sofrida condição de sobrevivente de um sistema político desigual e injusto.

REDE A CONSTRUIR

Muitos de nossos desafios decorrem da falta de uma rede de serviços que complementem nossa ação, permitindo que a atuação junto a esses meninos e meninas seja coerente, sistemática e contínua. Seria desejável que durante os períodos em que não estamos disponíveis para atendimento, houvessem outros tipos de equipamentos que oferecessem a retaguarda necessária para a manutenção de sua proteção. A constância dessas ações poderia potencializar os resultados que obtemos. Além do que, evidentemente, representaria um significativo avanço no sentido da garantia dos direitos de crianças e adolescentes que os vêm violados, não devemos nunca nos esquecer.
Enfrentamos sistematicamente problemas ao dependermos de outros programas e serviços públicos, tais como: os de suplementação de renda (bolsa escola, renda mínima etc), recursos materiais emergenciais (cesta básica, material de construção) ou vagas e atendimentos para educação, entre outros. Critérios de inclusão excessivamente restritivos impedem que as famílias de muitos de nossos usuários acessem a esses recursos, dificultando a atuação intersetorial na rede de atendimento que se articula caso a caso.
Quando nos propomos a atender a crianças e adolescentes de outros municípios, essas dificuldades se ampliam tanto em Campinas, onde os recursos são priorizados para a população local quanto em suas cidades de origem, com as quais nossa parceria fica mais distante, no mínimo geograficamente.

PARA TERMINAR

Campinas e nosso serviço são ousados, ao abordar as questões do consumo abusivo de SPA e dos meninos e meninas de rua como problemas de saúde pública. Essa abordagem inova ao enfrentar o primeiro fora do âmbito das Comunidades Terapêuticas baseadas na metodologia dos 12 passos (modelo de atendimento popularizados pelos grupos de auto-ajuda tipo NA/AA) e o segundo, além da esfera exclusiva das ações de assistência social. Em Campinas, essa abordagem intersetorial vem abrangendo também as áreas de educação, cultura, esportes e lazer, habitação e geração de emprego e renda além, é claro, da própria assistência social. Fazemos ainda um esforço para retirar essa pauta da discussão da segurança pública, reservando a ela o que lhe cabe estritamente, que é o que se refere à prática do ato infracional e ao tráfico de drogas.
O método dos 12 passos parte do pressuposto de que o enfrentamento do consumo abusivo de drogas exige a abstinência enquanto o modelo que fundamenta nosso serviço considera que devemos estimular a redução de danos, seja pela substituição de drogas mais "pesadas" por outras mais "leves", seja pela diminuição dos níveis de consumo, seja pela abstinência combinada ou não com o uso de medicação.
Abordar a questão do uso de drogas, em especial na adolescência, a partir da ótica da saúde qualifica o trabalho terapêutico, na medida em que a saúde tem um acúmulo histórico de métodos e instrumentos de avaliação de impacto das ações desenvolvidas e um debate técnico e político que incorporou expressivos recursos de participação do usuário dos serviços de saúde. Esse acúmulo pode contribuir efetivamente para a mudança da atitude dessas crianças e adolescentes com seu próprio processo de conquista e garantia de direitos, assumindo o protagonismo na construção de suas trajetórias pessoais e familiares. É esse o maior desafio que temos hoje, com o qual devemos nos debater.

Ney Moraes Filho
Elvira Braga Dias Moreira
Hilton A. da Silva
Isa Hamilria Magalhães Barreira
Jacélio da Silva
Margareth Morelli
Maria Aparecida Morelli

 


Referências bibliográficas:

  • Freire, Paulo. Educação como prática de liberdade. 14º ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 1983.
  • Winnicott, D.W. Natureza humana. Rio de Janeiro. Imago Ed. 1990.
  • Graciani, M. S. S. Pedagogia Social de Rua: análise e sistematização de uma experiência vivida. São Paulo. Cortez/Instituto Paulo Freire. 1997
  • Simson, O.,  Park, M. B. et all. Educação Não Formal. Campinas. Unicamp. 2002